Maior produtora mundial do setor combina escala industrial, baixo custo de produção, tecnologia e novas parcerias para ampliar sua presença em mercados estratégicos
Mato Grosso do Sul deixou de ser apenas uma fronteira de expansão da indústria de celulose e passou a ocupar posição estratégica na operação de uma das maiores empresas do setor no mundo.
É no município de Ribas do Rio Pardo que a Suzano colocou em operação, em 2024, a maior linha única de produção de celulose do planeta. O chamado Projeto Cerrado recebeu investimento de R$ 22,2 bilhões e acrescentou aproximadamente 2,55 milhões de toneladas anuais à capacidade produtiva da companhia.
O empreendimento consolidou uma estratégia baseada em escala, eficiência operacional e competitividade de custos — fatores que ajudam a explicar por que a Suzano continua ampliando sua presença internacional mesmo diante de um mercado global cada vez mais disputado.
A companhia possui aproximadamente 20% do mercado mundial de celulose e está presente em cerca de 100 países, segundo informações publicadas pela VEJA. Em 2025, suas vendas de celulose cresceram 15%, chegando a 12,4 milhões de toneladas, enquanto a receita líquida avançou 6%, para aproximadamente R$ 50 bilhões.
Ribas do Rio Pardo virou peça central da estratégia
A fábrica instalada em Ribas do Rio Pardo não representa apenas um aumento de capacidade produtiva.
O projeto foi concebido para operar em escala global e com elevada eficiência industrial.
A unidade tem capacidade nominal de 2,55 milhões de toneladas de celulose por ano e foi construída com tecnologias destinadas a reduzir custos, aumentar a produtividade e melhorar o aproveitamento energético.
O investimento total de R$ 22,2 bilhões incluiu tanto a construção da fábrica quanto a formação da base florestal e estruturas logísticas necessárias para abastecer a unidade e escoar a produção.
A dimensão do empreendimento também mudou a dinâmica econômica de Ribas do Rio Pardo e da região leste de Mato Grosso do Sul.
A instalação de uma indústria desse porte exige milhares de hectares de florestas plantadas, estradas, transporte, fornecedores, serviços especializados e uma estrutura logística capaz de movimentar milhões de toneladas de produtos.
O diferencial está no custo
No mercado mundial de celulose, produzir muito não é suficiente.
A competitividade depende diretamente do custo por tonelada, da produtividade das florestas, da eficiência energética, da logística e da capacidade de colocar o produto nos principais mercados consumidores.
É justamente nesse ponto que a Suzano encontra uma de suas principais vantagens.
Analistas citados pela VEJA destacam que o custo de produção da empresa é baixo em comparação com concorrentes, o que proporciona maior capacidade de resistência em momentos de queda dos preços internacionais da celulose.
Essa característica ganha ainda mais importância diante da expansão da oferta mundial.
Quanto maior a produção global, maior tende a ser a pressão sobre os preços. Empresas com estruturas de custo mais elevadas podem enfrentar dificuldades para preservar margens de lucro.
A Suzano, por outro lado, busca utilizar escala e eficiência como mecanismos de proteção.
Energia é parte da equação
O Projeto Cerrado também foi estruturado para aumentar a eficiência energética da operação.
A unidade utiliza biomassa e subprodutos do próprio processo industrial para geração de energia, reduzindo a dependência de fontes externas.
A estratégia é particularmente relevante para uma indústria que consome grandes quantidades de energia.
Na unidade de Ribas do Rio Pardo, a Suzano estima uma redução significativa dos custos relacionados à energia, fator que contribui diretamente para a competitividade da fábrica.
O modelo combina, portanto, três elementos fundamentais para a indústria de celulose brasileira: disponibilidade de madeira de eucalipto, geração de energia renovável e escala industrial.
Suzano não quer depender apenas da celulose
A estratégia da empresa também passa por uma mudança importante: ampliar a participação em produtos de maior valor agregado.
Um dos principais movimentos foi a parceria anunciada com a americana Kimberly-Clark, criando uma joint venture voltada ao mercado internacional de papéis tissue.
A operação foi avaliada em US$ 3,4 bilhões, e a Suzano ficará com 51% da nova companhia. O negócio envolve operações internacionais de produtos como papéis sanitários, incluindo marcas conhecidas globalmente.
A lógica empresarial é ampliar a presença da Suzano ao longo da cadeia de valor.
Em vez de concentrar sua atuação exclusivamente na venda de celulose como matéria-prima, a companhia passa a participar também de segmentos em que o produto é transformado em bens destinados diretamente ao consumidor.
É uma estratégia que reduz parcialmente a dependência das oscilações do mercado de commodities.
Ásia entra no radar
Outro eixo da expansão é geográfico.
A Suzano vem ampliando sua presença comercial na Ásia, região considerada estratégica devido ao crescimento da demanda por celulose e produtos derivados.
Nos últimos dois anos, a companhia abriu escritórios em Singapura, Coreia do Sul, Japão, Bangladesh, Vietnã e Índia, segundo informações divulgadas pela VEJA.
A China permanece como um dos principais mercados consumidores da empresa.
Ao mesmo tempo, o mercado chinês passa por um processo de verticalização, com empresas de papel ampliando sua integração com produtores de celulose.
Isso cria uma situação ambígua para a Suzano: a China representa um mercado gigantesco, mas também desenvolve capacidade própria de produção e integração industrial.
Concorrência também cresce em Mato Grosso do Sul
A liderança da Suzano será testada por novos projetos.
E Mato Grosso do Sul está novamente no centro dessa disputa.
A chilena Arauco está construindo em Inocência o Projeto Sucuriú, com investimento estimado em aproximadamente US$ 4,6 bilhões e capacidade projetada de 3,5 milhões de toneladas de celulose por ano.
Quando entrar em operação, a unidade será maior, em capacidade nominal, do que a fábrica da Suzano em Ribas do Rio Pardo.
A previsão é de início de operação entre o fim de 2027 e 2028, conforme as atualizações de cronograma divulgadas pela empresa.
A expansão da Arauco significa que Mato Grosso do Sul deverá concentrar duas das maiores operações industriais de celulose do mundo.
Uma disputa que favorece Mato Grosso do Sul
A concorrência entre gigantes internacionais pode produzir efeitos importantes para o Estado.
A presença de grandes fábricas exige infraestrutura, fornecedores, mão de obra qualificada, ferrovias, estradas, energia e serviços especializados.
Isso cria um ambiente favorável à formação de um cluster florestal-industrial, no qual empresas de diferentes segmentos passam a se instalar próximas aos grandes produtores.
O movimento pode atrair fabricantes de equipamentos, empresas de manutenção industrial, transportadoras, prestadores de serviços tecnológicos e fornecedores especializados.
A indústria de celulose deixa, assim, de ser apenas uma atividade produtiva e passa a funcionar como eixo de desenvolvimento regional.
Suzano também investe na eficiência das unidades de MS
A presença da companhia em Mato Grosso do Sul não se resume ao Projeto Cerrado.
Em Três Lagoas, a Suzano anunciou em 2026 um investimento de R$ 25 milhões para modernizar uma das unidades industriais e implantar uma nova planta de licor branco oxidado.
A estrutura tem como objetivo aumentar a eficiência do processo e reduzir o consumo de insumos.
O investimento mostra que a estratégia da companhia combina grandes projetos de expansão com modernização contínua das unidades existentes.
O tamanho da Suzano
A escala da empresa ajuda a compreender a importância dessas decisões.
Em 2025, a Suzano comercializou 12,4 milhões de toneladas de celulose, alta de 15% em relação ao ano anterior.
As vendas de papel também cresceram 25%, alcançando 1,5 milhão de toneladas.
A receita líquida chegou a aproximadamente R$ 50 bilhões, enquanto o lucro líquido alcançou R$ 13,4 bilhões.
Os números colocam a empresa entre os principais grupos industriais brasileiros com atuação internacional.
O próximo desafio é transformar escala em valor
Depois de construir uma das maiores fábricas do mundo e ampliar sua capacidade produtiva, a Suzano entra em uma nova fase.
O desafio agora não é simplesmente produzir mais.
É extrair mais valor da estrutura já construída.
Isso significa aumentar a produtividade da fábrica de Ribas do Rio Pardo, otimizar custos, ampliar mercados, desenvolver novos produtos e utilizar parcerias estratégicas para avançar em segmentos de maior valor agregado.
A parceria com a Kimberly-Clark e a expansão comercial na Ásia fazem parte dessa estratégia.
MS no centro de uma indústria global
A transformação provocada pela Suzano em Ribas do Rio Pardo também ajuda a explicar por que Mato Grosso do Sul ganhou importância no mapa internacional da celulose.
O Estado reúne condições consideradas estratégicas para o setor: disponibilidade de terras, expansão das florestas de eucalipto, infraestrutura em desenvolvimento, geração de energia renovável e proximidade de corredores logísticos.
Agora, com Suzano e Arauco investindo simultaneamente bilhões de dólares, Mato Grosso do Sul passa a abrigar uma disputa entre dois dos maiores grupos mundiais do setor.
Para a Suzano, o desafio é preservar a liderança.
Para a Arauco, a missão será conquistar espaço em um mercado no qual a empresa brasileira já possui escala, infraestrutura e relacionamento comercial consolidados.
Para Mato Grosso do Sul, a disputa pode representar uma oportunidade ainda maior: transformar a produção de celulose em uma das principais plataformas de industrialização, geração de empregos, exportações e atração de investimentos do Estado.
O que está em jogo, portanto, não é apenas quem produzirá mais celulose.
É quem conseguirá produzir com menor custo, vender nos mercados certos, agregar mais valor e controlar uma parcela maior da cadeia global.
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