Levantamento do MapBiomas aponta redução de 34% da vegetação nativa; avanço agropecuário e perda de cobertura vegetal próxima aos rios ampliam preocupações ambientais.
O Cerrado brasileiro perdeu aproximadamente 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025. A área corresponde a cerca de 517 mil quilômetros quadrados, dimensão que ajuda a explicar a comparação com aproximadamente 72 milhões de campos de futebol. Os números fazem parte da Coleção 11 do MapBiomas, levantamento que acompanha as transformações na cobertura e no uso da terra no país.
O resultado revela uma mudança profunda na paisagem do segundo maior bioma brasileiro. Ao longo de quatro décadas, a expansão das atividades agropecuárias e de outros usos econômicos do território reduziu a participação da vegetação natural, com consequências para a biodiversidade, a conservação dos solos e a disponibilidade de água.
Segundo os dados divulgados, a perda líquida equivale a aproximadamente 34% da vegetação nativa existente no início da série histórica. Em 2025, pouco menos da metade da área do Cerrado permanecia coberta por vegetação nativa.
Agricultura e pecuária transformam a paisagem
A expansão agropecuária está entre os principais fatores associados à transformação do bioma. A área destinada à agricultura aumentou 24,7 milhões de hectares desde 1985, chegando a aproximadamente 29,7 milhões de hectares em 2025.
A formação savânica, característica de extensas áreas do Cerrado, foi uma das classes de vegetação mais afetadas, com redução próxima de 41% no período analisado.
A transformação não ocorre de maneira uniforme. Nos últimos anos, a conversão de vegetação nativa para agricultura ganhou relevância em áreas do Matopiba, região que reúne partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e se consolidou como uma das principais fronteiras agrícolas do país.
O desafio está em compatibilizar a produção de alimentos e o desenvolvimento econômico com a preservação das áreas naturais que sustentam o funcionamento dos ecossistemas.
Vegetação próxima aos rios também diminuiu
Um dos aspectos mais preocupantes do levantamento é a redução da cobertura vegetal nas proximidades dos cursos d’água. A vegetação ciliar contribui para proteger as margens, reduzir a erosão, reter sedimentos e preservar habitats importantes para a fauna.
Quando essa proteção é removida, aumenta o risco de assoreamento dos rios e pode haver deterioração da qualidade da água. Os efeitos variam conforme as características do terreno, o uso do solo e as condições hidrológicas locais.
A perda de vegetação também pode comprometer a capacidade dos ecossistemas de responder a períodos de seca e a episódios de chuva intensa. Isso torna a conservação do Cerrado relevante não apenas para a biodiversidade, mas também para a segurança hídrica e para a própria atividade agropecuária.
Um bioma estratégico para o Brasil
O Cerrado abriga uma grande diversidade de espécies e desempenha papel importante na dinâmica das águas brasileiras. Suas paisagens incluem formações campestres, savânicas, florestais, veredas e áreas úmidas, cada qual com funções ecológicas específicas.
A conservação dos remanescentes depende de medidas como fiscalização do desmatamento ilegal, recuperação de áreas degradadas, proteção das nascentes e cumprimento da legislação ambiental. O planejamento territorial e a adoção de práticas produtivas mais eficientes também podem contribuir para reduzir a pressão sobre a vegetação nativa.
Os números do MapBiomas mostram que o desafio vai além de conter novas derrubadas: é necessário preservar os remanescentes que ainda conectam ecossistemas, protegem os recursos hídricos e mantêm a diversidade biológica do bioma.
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